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sábado, 3 de março de 2012

Uma mulher em três nomes



Estudo, Tereza Costa Rêgo, acrílico sobre madeira, 2,2 x 1,6 m


Tereza Costa Rêgo, artista plástica pernambucana com riquíssima experiência nas artes e na vida política, pertence a uma geração de pintores brasileiros que marcam nossa história da arte com as cores da nossa cultura. 


Neste primeiro de março, passei três horas agradabilíssimas ao lado de Tereza, conversando sobre pintura e sobre a vida. Dona de uma energia contagiante, o tempo parece não ter tocado no rosto lindo dessa senhora de 82 anos de idade. Que me confessou ser três em uma: Terezinha, Joana, Tereza.


Tereza, em seu atelier
O estado de Pernambuco tem gerado artistas, ao longo da história, que vêm marcando a arte brasileira. Cícero Dias e Vicente do Rego Monteiro, por exemplo, foram dois pintores pernambucanos que tiveram uma ativa participação na Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922 e que ajudaram a levar os ventos modernistas das artes para o Nordeste brasileiro.


Tereza Costa Rêgo, que era filha de uma tradicional família da aristocracia rural pernambucana, cresceu em meio ao mundo do glamour modernista do Recife, que incluía artistas como Teles Júnior, Francisco Brennand, os irmãos de Vicente do Rego Monteiro, Joaquim e Fedra, Lula Cardoso Ayres, Reynaldo Fonseca, Hélio Feijó, Wellington Virgulino e Abelardo da Hora. Todos eles seus amigos. Todos romperam com os padrões acadêmicos e adotaram estéticas pessoais que tinham mais a ver com a identidade cultural nordestina, com o imaginário pernambucano, com a luz e as cores do Brasil. Mesmo Reynaldo Fonseca, que segue os mestres holandeses como Van Eyck, guarda a sua veia brasileira. Mesmo Tereza, que se diz influenciada pela arte do pintor espanhol Francisco Goya, escancara uma alma pernambucana.


No texto escrito para o livro “Tereza Costa Rêgo”, publicado em 2009 em Recife, o pintor Raul Córdula explica que “Recife é uma cidade onde a prática da pintura remonta à chegada dos artistas europeus trazidos por Maurício de Nassau, no século XVII, durante a invasão holandesa, e que ainda influenciam nos dias atuais, a modalidade da arte pictórica em Pernambuco.”


Os marinheiros pedem e vão, acrílico
sobre madeira, 1,62 x 2,2 m
Nas décadas de 40 e 50, os artistas pernambucanos renovaram as artes plásticas no nordeste, dando-se mais liberdade expressiva. Havia diversos grupos em atividade naquele Estado, como o Atelier Coletivo do Recife, a Sociedade de Arte Moderna, o Movimento de Cultura Popular e um grupo de artistas ligados ao Movimento da Ribeira, que incluía Adão Pinheiro, José Barbosa, Maria Carmen, Anchises Azevedo, entre outros. A cidade eleita para abrigar esses novos movimentos nas artes plásticas pernambucanas, desde aquela época, foi e continua sendo Olinda, a cidade que acolhe hoje uma grande concentração de ateliês de artistas.


Mas na década de 1960, a vida de Terezinha (seu nome de batismo) deu uma guinada. A menina rica deixou para trás a vida nos salões da elite pernambucana, para acompanhar o grande amor da sua vida, o também pernambucano Diógenes de Arruda Câmara, dirigente do Partido Comunista do Brasil. Ela mesma resume a decisão que tomou nesse período:


“Fui educada para ser a boneca que enfeita o piano da sala de visitas. Acontece que um dia eu saltei do piano e fui embora!”


Veio com Diógenes Arruda inicialmente para São Paulo, onde ela se formou em História pela USP. Mas a vida clandestina e as perseguições da Ditadura Militar, fizeram com que o casal fosse embora do Brasil. Diógenes tinha sido preso e torturado em 1968. Após sua soltura, eles foram para o Chile, em 1972, mas acabaram tendo que fugir de Santiago também, após o golpe militar de Augusto Pinochet.


Verão, acrílica sobre madeira, 2,2 x 0,8 m, 2003
Teresa e Diógenes viveram muitos anos exilados entre Paris e Lisboa, passando também por Tirana (Albânia) e Pequim (China). No exílio, ela foi obrigada a uma vida de artista também clandestina: nesses anos assinava suas pinturas com o pseudônimo de Joana (nome de uma de suas netas, a jornalista Joana Rozowykwiat, do Portal Vermelho). Mas não podia participar de exposições de arte. Mesmo na Europa, os comunistas estavam sempre sob observação de espiões internacionais, e lá também precisavam usar nomes frios. Por isso, Terezinha ficou sendo Joana.


Em 1979, a luta do povo brasileiro pela Anistia trouxe de volta os exilados políticos, como João Amazonas e Edíria Carneiro (também artista plástica), e Diógenes Arruda e Tereza Costa Rêgo. Eles voltaram, em outubro de 1979, para seu país, sua família, seus amigos, seu povo. Muitas homenagens foram feitas aos exilados que voltavam, por parte dos que aqui ficaram. Havia tanta alegria em estar de volta para casa, em ver de volta amigos como João Amazonas, que o coração de Diógenes Arruda não resistiu: teve um enfarte, logo depois. Diz Raul Córdula, no livro sobre Tereza: “Ele avistou a terra prometida, mas não pôde ocupá-la”.


Para ela, foi uma perda incomensurável, que ela expressou no quadro “A partida”. Nele, uma mulher em dor profunda, se debruça sobre o corpo do marido morto. Mais uma vez, ela teve que se refazer, retomar seu caminho sob outros parâmetros, desta vez sem seu grande companheiro.


A partida, acrílica e colagem sobre madeira, 2,20 x 0,8 m, 1981
Joana se transformou em Tereza.


Voltou à sua terra com o coração partido, mas cheio das experiências que viveu mundo a fora, onde ajudou a escrever a história de um mundo em mudança e que apontava para a justiça social e a liberdade. Se estabeleceu em Olinda, onde organizou sua casa e seu atelier, onde mora até hoje. De volta ao trabalho, começou a reconstruir sua carreira de artista plástica, se engajando novamente entre os artistas pernambucanos, participando de exposições, eventos, atividades culturais. Hoje ela é a diretora do Museu do Mamulengo, que pertence à Prefeitura de Olinda.


Em 1981 fez sua primeira exposição, no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco. Hoje esse museu separa uma sala para exposições temporárias e tem como título “Galeria Tereza Costa Rêgo”.


Em 2008 recebeu o título de Cidadã Olindense, da Câmara Municipal de Olinda, quando declarou sobre si mesma: “Pode não parecer, queridos companheiros, mas eu sou uma mulher muito velha... uma mulher que viveu muitas vidas... uma mulher Terezinha... uma mulher Joana e uma mulher Tereza”.


Interiores, acrílica sobre eucatex,
1,0 x 1,5 m, 1999
Em 9 de novembro de 2011, no Teatro Santa Isabel, em Recife, Tereza Costa Rêgo recebeu o prêmio Honra do Mérito Cultural na categoria artista plástica, das mãos da ministra da Cultura Ana de Hollanda, do governador de Pernambuco, Eduardo Campos e do prefeito de Recife, João da Costa. Esse prêmio é a maior honraria do governo federal concedida aos artistas brasileiros e que, em 2011, homenageou a escritora e jornalista Patrícia Galvão – a Pagu.


A presidenta Dilma Rousseff, que de última hora se viu impedida de entregar o prêmio pessoalmente, enviou mensagem, lida pela atriz Denise Fraga, na qual destacou a importância da homenagem a Pagu, como um reconhecimento da inteligência e bravura da mulher brasileira e ressaltou que os agraciados com o prêmio de 2011 são “exemplos da vibrante e apaixonante mistura de sotaques e saberes que compõe o mosaico da cultura brasileira”.


Tereza Costa Rêgo estava entre outros homenageados, ao lado de Glênio Bianchetti, Adriana Varejão e Vik Muniz (artistas plásticos), além de Luiz Melodia, Jair Rodrigues, Hector Babenco, Beth Carvalho, Xico Dias, Antônio Nóbrega, Antônio Pitanga, o dramaturgo João das Neves, os escritores Afonso Borges e Lygia Bojunga, a atriz Ítala Nandi, o artesão Espedito Seleiro, o pedreiro Evandro dos Santos, e a antropóloga Claudett Ribeiro.


Tereza comentou, em nossa conversa: “Foi uma pena a Dilma não ter ido. Eu ia perguntar a ela se se lembrava de Diógenes Arruda, pois eles foram contemporâneos na luta contra a ditadura...”


Mas logo ela muda de assunto e diz que está pintando um grande painel de dez metros de largura por dois e meio de altura, onde conta a história das Mulheres de Tejucupapo. E me explica, enquanto me mostrava as fotos de seu trabalho: em 1646, as mulheres de um povoado chamado Tejucupapo tiveram que enfrentar sozinhas o ataque de 600 holandeses que tinham ido até aquele lugar para se apossar de produtos como milho e mandioca, pois precisavam desesperadamente diminuir a escassez de comida daqueles tempos, quando a fome assolava a cidade de Recife. Sem os maridos, que estavam nas guerras contra os invasores, elas tiveram que reagir. Puseram água pra ferver em seus tachos e panelas de barro, jogaram pimenta dentro e com esse molho partiram para cima dos soldados holandeses, acertando seus olhos com a mistura. Os desesperados homens eram depois atacados com qualquer coisa que servisse de arma e o resultado foi que mais de 300 cadáveres ficaram espalhados pelo vilarejo. Depois da batalha, no dia 24 de abril de 1646 as valentes mulheres pernambucanas impediram que invasores holandeses atacassem seus paióis de milho e mandioca e passaram para a história como heroínas e guerreiras.


É essa alma pernambucanamente feminina que encontramos em tantos quadros de Tereza! Eles refletem o imaginário popular, os símbolos, as cores, a alma do nosso povo. Com algum tratamento que considero um tanto quanto Barroco... O escritor Ariano Suassuna identificou também essa característica da pintura de Tereza quando disse em 1996: “O painel de Tereza Costa Rêgo, inclusive por uma forma central meio circular e de palco, fazia com que seu quadro entrasse naquela linguagem barroca e brasileira(...)”.
Na pintura dela podemos encontrar alguns desses elementos tão ricos da arte barroca, mas que ela dá uma leitura brasileira: contrastes fortes, dramaticidade, exuberância, sensualidade de curvas, um gosto pela espiritualidade popular, pelo realismo e algum toque de opulência, como podemos encontrar até mesmo nas pinturas da série “Bordel”, onde as prostitutas de Olinda e Recife aparecem rica e lindamente pintadas.


A imagem feminina é quase constante na pintura de Tereza. São mulheres em geral nuas, sem nenhuma preocupação pudica em ocultar suas carnes, seu sexo, até seu desejo. Muitas delas estão deitadas de costas, muitas delas transmitindo uma sensação de extrema tranqüilidade, como se elas ali estivessem descansando após momentos de prazer com o ser amado...


Mas há também os seres sagrados, as procissões, as igrejas, os santos e as casas e ruas de Olinda e Recife. E os animais. Ela mesmo reconhece: “sempre tem bichos nos meus quadros”.


Há gatos, cisnes, pombas brancas, tatus, rinoceronte, bois, bodes, carneiros, serpentes. São incrivelmente expressivos os painéis “O ovo da serpente ou Problemas da Terra” da série “Sete Luas de Sangue” e o “Apocalipse”. Este último é um gigantesco painel de 12 metros de largura por um e meio de altura, onde uma cobra gigante parece ter engolido um homem e uma mulher, e toda uma saga histórica acontece nas entranhas dessa serpente. Faz lembrar as histórias de cordel que povoa nosso imaginário pernambucano... Faz lembrar minhas noites de infância em Caruaru, com meu pai recitando cordéis que contavam estórias de princesas encantadas, de pavões misteriosos, de serpentes malvadas que engoliam pessoas...
Boi voador, acrílica sobre madeira, 4,4 x 1,6m, 1992
E por isso Tereza me lembra El Greco (1541-1614), o pintor espanhol de estilo também dramático e expressivo, que causou estranhamento entre seus contemporâneos, lá pelos idos de 1580.  Ele já pintava, naquela época, figuras tortuosas, alongadas, com uma coloração forte, dramática, usando figuras fantasmagóricas, que povoavam o imaginário desde o período medieval.


Mas isso é meu gosto, porque Tereza gosta mesmo é do pintor espanhol Francisco Goya, que também pintava figuras e seres que habitam do mundo real aos mundos imaginários da alma humana.


Criança, acrílica sobre madeira, 1,10 x 1m, 2009
As cenas dos bordéis de Recife e Olinda retratadas por ela, nos remetem ao pintor francês Toulouse-Lautrec, que também pintou os bordeis de Montmartre em Paris. Nessas conhecidas “Casas de Tolerância” onde os homens vão buscar o prazer perdido nos braços de mulheres sensuais, habitam seres de profunda sensibilidade, beleza e até certa ingenuidade. É o que podemos ver através das pinturas de Tereza, dessa série “Bordel”. Lá estão mulheres nuas, carnudas. Em cenas de sexo, ou simplesmente apreciadas por homens vestidos. Elas são belas e estão, em várias telas, em estado de reflexão, ou mesmo de espera... Ou descansam, simplesmente, após o prazer proporcionado a seus clientes... São lindas, as angélicas prostitutas de Tereza...


Ela trabalha em seu próprio atelier, em Olinda, num espaço dentro de sua própria casa. Ela me disse que gosta de trabalhar sem ninguém por perto, pois o momento da pintura para ela é um tempo de estar à vontade com ela mesma, completamente absorta pela sua arte. Alternando sua rotina diária de diretora do Museu do Mamulengo de Olinda com sua pintura, Tereza gosta de pintar em grandes superfícies. Usa tinta acrílica, em geral sobre madeira. “Eu nunca uso a cor azul”, me confessou, mostrando-me alguns tubos de tinta onde a predominância dos tons quentes confirmavam isso. Eu lhe perguntei o motivo. Ela respondeu simplesmente com um sorriso: “não sei...”


E me contou da emoção imensa que foi ver um de seus quadros reproduzido num painel gigantesco no carnaval de 2011, quando foi a homenageada de Pernambuco. O governador Eduardo Campos e sua esposa recepcionaram a homenageada do ano dos foliões pernambucanos, caracterizados como personagens de um quadro de Tereza. Ela completou: “Quando eu vi tudo aquilo, todo o meu trabalho de artista ali vivo à minha frente, e sendo homenageada pelo meu povo, a emoção foi enorme!


Para completar, nessa rápida passagem por São Paulo, Tereza recebeu um convite da artista plástica paulistana Lucia Py para expor seu painel “Mulheres de Tejucupapo”, como convidada do Núcleo de Arte Contemporânea Latino-Americana. Cabe a nós ficar aguardando, então, que a arte de Tereza possa ser vista de perto por nós moradores desta desvairada Pauliceia...


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Um resumo da carreira artística da Tereza Costa Rêgo
Ela fez as seguintes exposições Individuais: 
- Pintura, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, Olinda, 1981; Pintura, Galeria Carmita Brito, Recife, 1985; Pintura e Lançamento de Álbum de Gravuras, Palácio dos Governadores, Olinda, 1984; Pintura, Atelier do Artista, Olinda, 1985; "Olinda Gravuras", Vila do Conde, Portugal, 1985; Pintura e Álbum de Gravura, Oficina Guaianases de Gravura, Olinda, 1988; Pintura, Galeria Officina, Recife, 1988; Pintura, Atelier do Artista, 1990; Pintura, Recife-Olinda/Olinda-Recife, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, Olinda, 1992; Gravura, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, Olinda, 1992; Atelier do Artista, 40 Anos de Arte, Olinda, 1997; Museu de Arte Moderna, 7 Luas de Sangue, Recife, 2000; Espaço Cultural Correios, 7 Luas de Sangue, Rio de Janeiro, 2001; Museu de Arte P P, 7 luas de Sangue, São Paulo, 2002.


Leda e o cisne, acrílica sobre madeira, 1 x ,7 m, 1978
Mas também participou das seguintes exposições coletivas:
Coletiva de Artistas Brasileiros, Galeria Vila Rica, Recife, 1980; Salão de Artes Plásticas de Pernambuco, Museu do Estado de Pernambuco, Recife, 1981; Coletiva de Artistas Brasileiros, Galeria Vila Rica, Recife, 1981; Pintura e Poesia - Geração 65, Oficina 154 - Edições Piratas, Olinda, 1981; 1º Salão de Arte Erótica de Pernambuco, Vivencial Diversiones, Olinda, 1982; Coletiva de Artistas Brasileiros, Avivarte, Olinda, 1983; Exposição Mulher Dez Artistas Pernambucanas, Shopping Recife, 1984; As Novas Imagens do Nordeste Rio Design Center, Rio de Janeiro, 1984; Exposição Comemorativa dos 450 anos de Olinda, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, Olinda, 1985; Artistas Olindenses, Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco, Olinda, 1985; Mostra de Arte do Recife, Teatro Santa Isabel, Recife, 1985; Coletiva Guaianases, Oficina Guaianases de Gravura, Olinda, 1985, 1986, 1987 e 1988; Galeria Oficina, Recife, 1986, 1987 e 1988; Pintores Brasileiros, Portugal, 1987; Cor de Pernambuco, Ranulpho Galeria de Arte, São Paulo, 1989; O Gato Pintado, Ranulpho Galeria de Arte, São Paulo, 1989; O Gato na Pintura, Ranulpho Galeria de Arte, São Paulo, 1989; O Circo, Galeria Ranulpho, Recife, 1990; Fernando de Noronha, Eco 92, 3 Visões MAC; Viagem ao ano 2000, Passaporte Para O Futuro, São Paulo, 1994; A Batalha dos Guararapes, Museu do Estado, 1994; Arte Brasileira, Estúdio A, São Paulo, 1997


Das exposições coletiva internacionais, Tereza participou:
Exposição “Seis Pintores de Olinda”, Vila do Conde, Portugal, 1990; Cumplicidades, Lisboa, 1995; Olhar Sobre Os Trópicos, Lisboa, 1995; Arte Brasileira, UNESCO, Paris, 1995; Artistas Pernambucanos, Cuba, Santiago de Cuba, 1997; Artistas Pernambucanos, Portugal, 2003.
Mulher nua de costas, da série Bordel, acrílica sobre tela, 2,20 x 0,8 m, 2009 



segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Pernambuco, primeiro retrato do Brasil

Tereza Costa Rêgo ao lado de sua tela "Batalha dos Guararapes"
Nesta quarta-feira, 12 de agosto, o Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, abre uma exposição retrospectiva sobre a pintura pernambucana que alcança do século XVII até os dias atuais. Intitulada “Pernambuco, primeiro retrato do Brasil”, a mostra trará desde obras de Frans Post, o holandês que fez os primeiros retratos do Brasil, em Pernambuco, até Tereza Costa Rêgo, pintora atual, que já entrevistamos neste Blog (leia aqui).

Segundo o portal do Jornal do Comércio de Pernambuco, “enquanto o modernismo, no mundo e no Brasil, começou a insistir de maneira quase autônoma em imperativos como o construtivismo, os pintores pernambucanos torciam o nariz para ditaduras estéticas”. Seus artistas locais continuaram pintando as paisagens brasileiras do nordeste. Pernambuco foi o local onde se inaugurou, no continente sul americano, a pintura de paisagens, com os pintores holandeses que vieram para cá a convite de Maurício de Nassau, em especial Frans Post.

Marcos Lontra, crítico e historiador da arte, afirma que Frans Post foi o primeiro artista a pintar a paisagem brasileira “mais de um século antes da chegada da Missão Artística Francesa ao Brasil, em 1816”. Ele diz ainda que “a pintura pernambucana foi fundamental para  a formação de um olhar na pintura brasileira, que se estrutura com Post, se espraia com acadêmicos como Telles Jr, fundamentando-se com Cícero Dias no Modernismo brasileiro”. Marcos Lontra é o curador desta exposição.

"Paisagem brasileira", pintura de Frans Post, séc. XVII
“A paisagem pernambucana é um dos grandes temas da paisagem brasileira. O Brasil ainda precisa entender e reconhecer melhor a contribuição de Pernambuco para a arte contemporânea do Brasil. Quando se fala do modernismo, repetimos quase sempre o discurso hegemônico paulista. No caso pernambucano, o modernismo tem uma relação direta com o Movimento Regionalista (liderado por Gilberto Freyre). Não é uma questão de primazia, de dizer o que é melhor ou pior, mas de especificidade do Modernismo pernambucano. Através dos diálogos com a Europa, por meio das famílias ricas, o moderno é sempre pensado em diálogo com o regional”, apontou Marcos Lontra ao Diário do Comércio.

Esta mostra traz obras de cinco séculos de artistas pernambucanos: de Frans Post a Albert Eckout, de Telles Júnior a Cícero Dias, de Francisco Brennand a Tereza Costa Rêgo, que participa com um de seus grandes paineis sobre a Batalha dos Guararapes. “Tereza é uma pintora quem tem a coragem de enfrentar questões históricas com trabalhos violentos”, observou o curador, que também ressaltou o caráter cultural de formação de identidade nos paisagistas pernambucanos.

Pernambuco, lugar da mais rica tradição cultural, sempre teve altíssima produção artística, ainda não devidamente reconhecida, por causa da visão hegemônica que recai praticamente só sobre a produção sudeste, em especial São Paulo e Rio. Mas em Pernambuco, poetas, pintores, fotógrafos, cartunistas, arquitetos, dramaturgos, editores, escultores, músicos, dançarinos, cantadores, cineastas, pensadores, escritores (sem falar na imensa quantidade de artistas mais ligados às tradições populares da cultura pernambucana) foram sempre os responsáveis pela efervescência cultural do meu Estado, onde se destacam nomes como os Vicente do Rego Monteiro, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Aloísio Magalhães, Ariano Suassuna, Abelardo da Hora, Kleber Mendonça Filho, Tereza Costa Rêgo, Antonio Nóbrega, etc.

Abelardo da Hora, escultor pernambucano falecido em 2014, com uma de suas esculturas

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Diário de Madrid VII

Sala interna do Museu do Prado
O Museu do Prado estava logo ali, muito perto da Plaza Santa Ana. Mesmo sendo domingo não tinha mais fila, porque cheguei às 15h e o museu fecha às 19h. Fui mais tarde de propósito, para não entrar junto com a multidão de turistas. Como voltarei mais vezes, vou com mais calma.

Logo na entrada, o Museu do Prado já se escancara de uma forma impressionante: Tiziano, Tiziano e mais Tiziano! O grande pintor italiano que segundo Heinrich Wölfflin deu as primeiras pinceladas sem linha (isto é mais difícil de explicar, mas quem tiver interesse em saber mais, em outro post está mais claro (clique aqui). E logo em seguida, Rubens, Peter Paul Rubens, uma sala só para ele. E Veronese, Tintoretto, Bassano, Caravaggio, Annibale Carracci, Orazio Gentileschi, muitos italianos. E muitos holandeses, flamengos, franceses e especialmente espanhois.

O Museu do Prado possui o maior acervo de obras de arte espanhola do mundo, com uma coleção que vem desde o século XII. O edifício foi projetado em 1785 por ordem do rei Carlos III para abrigar o Gabinete de Ciências Naturais. Mas outro rei, Fernando VII, incentivado por sua esposa Maria Isabel de Bragança, resolveu destiná-lo a ser mesmo um museu que abrigaria a rica coleção dos reis espanhois.

O Prado foi aberto ao público pela primeira vez em 1819 e em seu primeiro catálogo, havia uma lista com 311 pinturas mas, diz a página informativa do Museu, que na verdade havia um total de 1510 obras que procediam das famílias reais daqui. Esta coleção atual começou a se formar no século XVI, sob a administração do rei Carlos V e enriquecida sucessivamente pelos reis que lhe seguiram depois. Então esta coleção atual teve como berço as coleções reais. O escritor espanhol Ortega y Gasset, numa biografia de Velázquez que estou lendo no Brasil, afirma que Diego Velázquez viajou algumas vezes à Itália, por ordem do rei, para adquirir as mais belas obras da pintura que encontrasse. E o Prado guarda, então, verdadeiros tesouros da arte.

Após ver algumas salas com os pintores italianos, vi que precisava ir direto a dois espanhois e aproveitar as duas horas até o Museu fechar. Vou fazendo assim: organizo minhas idas ao Prado para ver por partes mesmo e não tudo de uma vez. Então fui ver Diego Velázquez em primeiro lugar.

Há uma sala que concentra as obras deste pintor espanhol, mas em muitas outras ele se encontra presente. Esta sala principal é onde fica, em lugar de destaque, seu quadro mais conhecido: "As Meninas". Mas como é mais famoso, atrai as maiores atenções. Fui vendo devagar os outros quadros. A gente não tem muita ideia  de como pinta um artista a não ser quando estamos diante do original. Velázquez é muito mais impressionante do que eu podia imaginar! Seu modo de pintar solto, sem desenhar a forma e os detalhes das coisas está muito implícito no quadro As Meninas. Há nele uma simplicidade impressionante e por isso Joaquín Sorolla estudou tanto Velázquez. Os detalhes das roupas, os pinceis na mão do pintor do quadro, o cachorro deitado no chão, o menino que pisa em cima dele... pinceladas soltas, sem se prender aos detalhes. Mas quando se olha de longe tudo salta aos nossos olhos, tudo se encaixa. Fiquei fazendo esse movimento de me aproximar e me distanciar do quadro, estudando cada pedaço dele.

O quadro é muito grande. E mais da metade da parte superior é uma parede escura de pé direito alto, de onde se vêem vultos de pinturas que se atribuem a Rubens. Ortega y Gasset diz que Rubens ficou 8 meses aqui em Madrid e conheceu Velázquez. Ao fundo há a porta aberta com um homem saindo - ou entrando - no compartimento. Aquilo brilha de forma impressionante! Por algum motivo Velázquez faz nossos olhos irem na direção do pequeno homem no fundo, numa porta aberta. E o grande cavalete do pintor à esquerda também parece querer dizer algo sobre a pequenez da Infanta, da realeza, cujos perfis apenas se vêem em vultos num espelho do fundo.

Mas vi também e me impressionei muito com o quadro "A forja de vulcano", que já tinha visto uma tela antes de mesmo título que foi pintada pelo italiano Jacopo Bassano. Também é uma grande pintura de Velázquez, onde dá para ver que ele usou empasto especialmente no ferro ardente nas mãos do forjador e nos brilhos da roupa do anjo.

Antes de ir até às salas de Francisco Goya, dei uma olhada nas pinturas de José Ribera, o espanhol que foi morar na Itália. A pintura dele é muito intensa, com grandes sombras, pintura que lembra Caravaggio.

Mas cheguei em Goya, em suas pinturas, que estão espalhadas em várias salas, numa ala do Museu dedicada a ele. Lembrei-me de Tereza Costa Rêgo, pintora brasileira de Olinda que me disse que Goya é sempre sua grande referência de trabalho.

Depois de ver todas as salas, fui ver suas pinturas conhecidas como "Pinturas Negras". São denominadas assim porque ele usou muitos tons escuros para pintá-las. Foram feitas diretamente sobre as paredes de sua casa, nos arredores de Madrid. Depois foram transplantadas para telas especiais, restauradas e colocadas no Museu. Fiquei todo o resto do tempo que me sobrava nesta sala impressionante.

Resolvi desenhar. Essa coisa de ficar vendo esses grandes pintores vai dando na gente uma necessidade de aproveitar o momento e registrar em desenho. Peguei detalhes dos quadros, pés, expressões, mãos, rostos. Peguei meu caderno de desenho e um lápis-carvão e fiquei estudando e desenhando. Infelizmente não posso postá-los aqui agora porque não tenho scanner e as fotos da câmera ficam tremidas. Prefiro fazer isso depois, em São Paulo.

Algumas pessoas vieram ver o que eu fazia. Duas senhoras espanholas conversaram comigo: queriam saber que lápis eu estava usando, de onde eu era, o que eu fazia. Quando disse que era "brasileña", elas sorriram e me disseram que foram num evento em Alcalá de Henares, cidade de Miguel de Cervantes, onde o brasileiro Ziraldo ganhou um prêmio como caricaturista equivalente ao Prêmio Cervantes da literatura. Elas elogiaram meu trabalho, se despediram e eu voltei ao meu desenho. As expressões das figuras nas pinturas negras são dramáticas, pesadas, assim como as pinceladas que Goya deu sobre elas. Nesta fase de sua vida, parece que ele já não estava nem aí para as opiniões alheias sobre sua forma de ver e pensar o mundo e sobre sua forma de pintar. Ele expressava o medo, a angústia, o sofrimento das pessoas diante dos acontecimentos do mundo que tocam a alma de qualquer pessoa mais sensível.

Tentei captar essas expressões.

Uma família se aproximou de mim, porque uma menina queria ver o que eu desenhava. Mostrei a ela. Uma menininha menor ainda também ficou na ponta dos pés para ver. Eu me abaixei e mostrei a ela: te gusta? Ela riu e olhou para mim com cara de espanto. A mãe lhe mostrou no quadro a figura que eu estava fazendo. Ela olhou de novo para mim com espanto. Se despediram e sairam. Eu agradeci os elogios. Dois segundos depois a menininha pequena veio até mim e falou sorrindo: "Tu dibujas mui bien!"

A opinião dela será levada em conta o resto da minha vida! Porque há momentos em que uma angústia nos domina, a dúvida toma conta, e muitas vezes um olhar de fora nos reequilibra e nos traz de volta ao centro, ao foco. Desenhei ainda mais segura após a opinião da pequena espanhola.

domingo, 1 de julho de 2012

Lançamento do livro: As artes plásticas na formação do professor - uma perspectiva interdisciplinar

Estudo da pintura de Vermeer "Moça com brinco de pérola", no Atelier Vermeer, Paris, 2011
Na próxima quarta-feira, dia 4 de julho, a partir das 19 horas, estarei fazendo o lançamento do meu livro As artes plásticas na formação do professor, uma perspectiva interdisciplinar. Todos estão convidados a comparecer na Livraria do Espaço Unibanco de Cinema, à Rua Augusta, 1475, São Paulo.


Este livro surgiu de uma ideia do meu amigo e poeta Jeosafá Gonçalves, educador e consultor de diversas editoras, de transformar textos e artigos publicados neste blog e em alguns portais e revistas, num formato de livro de apoio à formação do professor.

Essa possibilidade me mobilizou a vasculhar, entre os meus escritos, aqueles que podiam formatar um livro que fosse útil para quem quisesse saber um pouco mais sobre arte. Jeosafá me ajudou nessa escolha, e a organização dos textos em livros e capítulos passou por suas mãos, experimentadas em preparar livros de apoio a professores.

Mas esse livro, na verdade, pode servir a qualquer pessoa que queira conhecer um pouco mais sobre o mundo fascinante e encantador das artes plásticas. É fruto de vários anos de estudo e pesquisa da teoria e da história da arte, do ponto de vista de uma artista figurativa, que insiste em permanecer imersa dentro da linhagem dos mestres da pintura com viés realista.

Vale salientar que participar de um Atelier de Arte Realista aqui em São Paulo, sob a orientação do pintor Maurício Takiguthi, tem sido fundamental para guiar meus estudos teóricos e práticos tendo como foco a obra de grandes mestres da pintura universal, que vem desde Ticiano, Rafael, Caravaggio, Rembrandt, Velázquez, Vermeer... Ser parte dessa visão teórica e plástica é um exercício diário de resistência ao canto da sereia que poderia nos impelir a prescindir do exercício muitas vezes extenuante da técnica, da busca do nosso próprio aperfeiçoamento, em prol da mesmice e do pragmatismo dos dias atuais.

Vale também dizer que um outro grupo do qual faço parte, em torno do Cineclube Baixa-Augusta, que reúne artistas, cineastas e intelectuais, tem enriquecido muito as minhas reflexões, após muitas discussões, estudos e conversas de alto nível, focadas no mundo cultural contemporâneo.

Assim como minha formação humanista não me deixa esquecer que meu desejo por um mundo justo e solidário é também parte do meu impulso criativo. Do fundo da minha alma parte uma vontade enorme de ser grande, e que sempre me leva a buscar a vida em grupo, a formação coletiva que me leve para mais perto de um futuro igual para todos.

Então este livro também pode ser visto como a minha forma pessoal de ver esse mundo que nos maravilha, que é o mundo da Arte, que aproxima os seres humanos uns dos outros no tempo e no espaço. Enquanto vamos estudando a história da arte, desde tempos remotíssimos, vamos percebendo que a realidade objetiva vai impulsionando ideias, movimentos, sistemas. E que o artista, imerso em seu mundo em mudança, vai criando sua própria narrativa, descrevendo sua visão pessoal das coisas e muitas vezes sendo parte de profundas mudanças de rumo. O historiador da arte alemão Heinrich Wölflin dá um exemplo: Rafael, enquanto pintava a Stanza d’Eliodoro em Roma, entre 1512 e 1514, estava rompendo, aos olhos do mundo, com o modo plástico de ver as coisas de forma linear, inaugurando a fase pictórica em que as massas de cores rompiam os espaços, criando mais relações entre as cores, figuras e efeitos do quadro. Simultaneamente, a ciência se desenvolvia, assim como o capitalismo, a filosofia, a literatura, o teatro, a música.


O livro também traz algumas entrevistas e textos com pintores da atualidade: Maurício Takiguthi, Rubens Ianelli, Tereza Costa Rêgo, Edíria Carneiro. Assim como faço uma visita a importantes artistas plásticos europeus, americanos – inclusive brasileiros – e orientais. Dos clássicos aos contemporâneos, o leitor tem em mãos aspectos biográficos, estéticos e mesmo filosóficos mobilizados por esses artistas para expressar seu tempo, ou negá-lo.

Em todos os capítulos deste livro, a arte, a história e a sociedade se encontram e se revezam em ênfases sutis e articuladas, sob as quais jazem miríades de possibilidades de trabalho, seja em sala de aula, no caso dos professores, ou fora dela, no caso do leitor comum.

Um pouco sobre mim: desde 1979 venho me dedicando ao aprendizado desse mundo do desenho e da pintura, mas não de forma linear. Altos e baixos passaram por mim, nesses últimos 30 anos. Passei por escolas de arte diversas, entre as quais a Sociedade Brasileira de Belas Artes no Rio de Janeiro. Hoje estudo pintura com Maurício Takiguthi. Sou também bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo, e faço pesquisa em teoria e história da Arte. Fiz parte de um workshop de pintura no Atelier Vermeer de Paris. Visitei dezenas de museus em diversos países, como Espanha, Portugal, França, Holanda, Alemanha, Polônia, Brasil e Argentina, com finalidade de pesquisa. Desde 2009, mantenho este blog onde escrevo minhas ideias e estudos sobre artes plásticas, assim como colaboro com textos sobre o mesmo tema para diversas revistas e sites.

Para terminar, enquanto consciente de estar dando um passo arriscado, como é publicar um livro, lembro Clarice Lispector:

“Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco,
sem o qual a vida não vale a pena!”