quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Meu coração é vermelho

Manifestação de 17 de outubro de 1905, Ilya Repin, 1906, óleo sobre tela
Quando criança, lá em Caruaru, Pernambuco, havia uma disputa folclórica em minha cidade em torno do Azul e do Vermelho, que eram dois cordões do Pastoril. É uma brincadeira de origem europeia, encenada sempre perto do natal. Lembro-me muito bem que eu ficava esperando a vitória das pastoras vestidas de “encarnado”, contra as de azul. Um dos motivos é que eu adorava esta palavra: encarnado! No Auto de Natal, a Mestra (vermelha) e a Contra-mestra (azul) fazem uma espécie de disputa musical para conquistar a platéia para suas cores. O cordão que angariar mais votos sai vencedor. Eu ficava feliz com a vitória do cordão encarnado…

Hoje, vésperas da eleição presidencial no Brasil, o embate entre o azul e o vermelho tomaram dimensões nacionais… E mais uma vez tenho lado e torcida: o Cordão Encarnado…

Na história das cores, o Vermelho é a cor mais antiga. Como pigmento, começou a ser fabricado desde muito cedo; como símbolo, logo apareceu ligado às forças de poder, de fogo, de guerra. E de luz.

O Vermelho foi escolhido também como a cor dos que se posicionam à gauche na vida, como diria nosso poeta Drummond. É a cor da bandeira dos Partidos Comunistas. Diz o historiador francês Michel Pastoreau que isso se deu em 1789, quando a Assembleia Constituinte francesa decretou que uma bandeira vermelha seria colocada nos cruzamentos das ruas para mostrar que as manifestações públicas estavam proibidas e que a polícia deveria intervir a qualquer momento. O Vermelho significava, então, interdição de se manifestar publicamente. 


Rue Mosnier decorada com bandeiras, Édouard Manet, 1878
Foi assim que no dia 17 de julho de 1791 milhares de parisienses se reuniram no Campo de Marte para exigir a destituição de Luís XVI. O prefeito de Paris, Bailly, mandou içar no alto uma grande bandeira vermelha, para que não restasse dúvida de que o povo devia se manter longe das ruas. Mas o povo tomou a praça e a polícia investiu contra os manifestantes, matando mais de 50 pessoas. Por causa disso, numa “surpreendente inversão” simbólica, a mesma bandeira vermelha que era usada para impedir que o povo francês se manifestasse, lavada desta forma pelo “sangue desses mártires”, passou, desde então, a ser o emblema do povo oprimido e da revolução em marcha. “A bandeira vermelha, diz um dos revolucionários franceses, além de ser um símbolo da miséria do povo também é um sinal de ruptura com o passado”.


Cartaz de maio de 1968 em Paris
O “drapeau rouge” (bandeira vermelha) se transformou, desde o século XIX, num símbolo do movimento operário e das lutas sociais. Daqueles que sonham juntos o sonho de um mundo justo, com igualdade para todos e justiça social. Todos os partidos de esquerda no mundo adotaram a cor vermelha em sua bandeira, como é o exemplo do Partido Comunista do Brasil, que já tem 92 anos de existência ativa na política brasileira. O vermelho de sua bandeira anuncia um lado: o lado do povo, dos trabalhadores, dos que produzem.

O Partido dos Trabalhadores - PT - fundado em 1980, tem reunido em torno de si um dos maiores movimentos de esquerda da América Latina. Sua bandeira também é vermelha, com uma estrela branca. Depois de 12 anos mudando o Brasil, propiciando uma mais justa distribuição de renda, embora ainda mínima, assim como garantias básicas de direitos sociais e aumento da qualidade de vida do povo brasileiro, a ala esquerda, o Cordão esquerdo vestido de vermelho que hoje toma as ruas do Brasil aponta para mais uma vitória do povo, com a eleição novamente da presidenta Dilma Rousseff. O que nos resta esperar é que essa sede de mudanças que toma conta do Brasil gere forças ainda maiores para que a presidenta radicalize ainda mais nas mudanças estruturais e necessárias. Um tempo novo se delineia, e é preciso manter o coração valente ainda mais valente depois das eleições!

Depois que vi a capital do meu estado, Pernambuco, tingida de encarnado na noite desta quarta, dia 22, me lembrei da minha infância em Caruaru. Fiquei com vontade de entoar a canção brasileira que exalta a cor vermelha, que transcrevo abaixo. O compositor Chico da Silva escreveu a letra que foi cantada por Fafá de Belém, assim como por Daniela Mercury:

"A cor de meu batuque tem o toque, tem o som da minha voz 
Vermelho, vermelhaço, vermelhusco, vermelhante, vermelhão!
O velho comunista se aliançou ao rubro do rubor do meu amor 
O brilho do meu canto tem o tom e a expressão da minha cor (Vermelho!) 

Meu coração é vermelho, de vermelho vive o coração 
Tudo é garantido após a rosa avermelhar. 
Tudo é garantido após o sol vermelhecer.

Vermelhou no curral a ideologia do folclore avermelhou 
Vermelhou a paixão 
O fogo de artifício da vitória avermelhou!"

Os ventos da história impulsionam as mudanças anunciadas pelo vermelho

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Salvador Dalí no Instituto Tomie Ohtake

Salvador Dalí em 1956
Uma exposição dedicada ao mais conhecido pintor surrealista, Salvador Dalí, está sendo inaugurada em São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake, localizado no bairro de Pinheiros. São 218 peças, entre as quais 24 pinturas, 15 fotografias e quatro vídeos que dão uma ideia da carreira e do desenvolvimento da técnica do pintor catalão. Também estarão participando desta mostra filmes que ele fez com Luiz Buñuel e Alfred Hitchcock. Essas obras foram cedidas pela Fundação Gala-Salvador Dalí, pelo Museu Reina Sofia e pelo Museu Salvador Dalí.

Essas obras foram escolhidas principalmente entre as do período surrealista do pintor, e a ideia dos organizadores é que o público possa ver sua evolução artística através das diferentes influências que ele foi recebendo, não só técnicas como ideológicas. Do período de formação como pintor estão as obras “Retrato del padre y casa Es Llander”, de 1920 e “Autorretrato cubista” de 1923. Da fase surrealista são “Monumento imperial a mujer-niña”, de 1929, “El sentimiento de velocidad”, de 1931, “Figura y drapeado en un paysage”, de 1935) e “Paysage pagano medio”, esta de 1937. Mas há também outras obras e desenhos, como as ilustrações para o livro “Dom Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes, e “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol.


"Retrato de mi hermana", 1925
O Surrealismo foi um movimento artístico surgido no começo do século XX, na França, e teve como um de mentores o poeta André Breton. O termo “surrealismo”, que seria traduzido como “algo acima da realidade”, foi cunhado por um outro poeta francês, Guillaume Apollinaire, em 1917. Ela apareceu pela primeira vez como subtítulo da peça de teatro “As tetas de Tiresias”, de Apollinaire.

Mas os artistas que abraçaram essa corrente estética se diziam seguidores de pensadores e artistas do passado, como o filósofo pré-socrático Heráclito e os escritores franceses Marquês de Sade e Charles Fourier. Na pintura, eles consideravam como um dos primeiros surrealistas o pintor holandês do século XV, Hieronymus Bosch, que pintou naquela época quadros como “O Jardim das Delícias” e “O carro de feno”. Mas o ponto de estopim do Surrealismo no século XX foi o movimento dadaísta, que o antecedeu.


Museu Dalí em Figueras, Espanha
Salvador Dalí nasceu em 11 de maio de 1904, em Figuera, na Espanha. Quando tinha 12 anos, numa viagem a Cadaqués com os pais, conheceu a pintura de Ramon Pichot, um artista que viajava muito a Paris, porque na época esta cidade era o centro da arte no mundo. Pichot conheceu o talento do menino e orientou seu pai a lhe matricular numa escola de pintura. Dalí teve como primeiro mestre  Juan Nuñez.

Em 1922, Salvador Dalí se muda para Madrid e vai estudar na famosa Real Academia de Belas Artes de San Fernando, que conheci pessoalmente em 2013, em minha viagem a Madrid. Foi morar numa residência estudantil. Já nessa época, fazia pinturas de inspiração cubista, o que atraiu a atenção de dois artistas espanhois como Federico Garcia Lorca e Luiz Buñuel, o futuro diretor de cinema surrealista. A partir de 1924, Dalí também começou a fazer ilustrações para livros.


"El sentimiento de velocidad", 1931
Em 1926 foi expulso da Real Academia por se negar a fazer os exames finais de seu curso de pintura. Teria dito que não havia naquela escola nenhum professor que pudesse avaliá-lo… Seu quadro “Cesta de pão” (acima), pintado para seu exame final na Real Academia, mostra como ele dominava a técnica da pintura acadêmica. Foi a Paris, onde conheceu Pablo Picasso. Dalí pintava, então, desde obras mais acadêmicas até aquelas onde se notava claramente a influência dos movimentos vanguardistas da época. Mas antes disso, ele havia estudado a obra de Zurbarán, Bronzino, Rafael, Vermeer, Velázquez…

Em 1929, colaborou na produção do filme “O cão andaluz” de seu amigo Luiz Buñuel, filme que já dava as primeiras mostras do imaginário surrealista. No mesmo ano conheceu sua futura esposa, Gala, uma imigrante russa que era 11 anos mais velha que ele. Se casaram em 1934 e viveram juntos toda a vida.

Leia mais sobre Salvador Dalí neste post anterior...

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De 19 de outubro a 11 de janeiro
Instituto Tomie Ohtake
Avenida Pedroso de Moraes - Pinheiros - São Paulo - SP - Tel.: (11) 2245 1900
Terça a domingo e feriados, 11h às 20h.
Entrada grátis

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Pinturas recentes de Edson Souza

Amsterdam - Damrak, Edson Souza, óleo sobre tela
O Ateliê e Galeria Contraponto inaugura uma exposição de pinturas do artista Edson Souza, com paisagens urbanas pintadas a óleo. Com curadoria de Claudinei Roberto, a exposição será aberta no próximo dia 18 de outubro, sábado, a partir das 16 horas.

Edson Souza é um artista paulistano, com formação na Escola de Comunicações e Artes da USP, onde se bacharelou em Pintura. Também formou-se em Engenharia Química pelo POLI-USP e em Economia pela FEA-USP. Atualmente trabalha como engenheiro de processos, mas paralelamente trabalha em seu Ateliê, que mantém desde 1997, com desenho, gravura, fotografia e pintura.

Autorretrato, Edson Souza
Edson Souza explica que o motivo de sua poética “é a própria linguagem da Pintura. Por meio da investigação das tradições da Pintura busco contribuir para a renovação deste legado valioso”. E para concretizar esta intenção ele recorre “a registros de viagem, fragmentos de imagens colhidos no cotidiano de cidades visitadas. Estes registros são trabalhados no ateliê, mesclados, modificados, simplificados, até atingir a essência da composição desejada. Dedico atenção especial aos detalhes, que permitem que cada trecho da composição adquira a mesma importância. O tema das observações de viagens é recorrente e permite refletir de forma singular, através de um jogo de citações e referências, sobre problemas atemporais da pintura”.
Edson Souza já participou das seguintes exposições: “Cúmplice do Silêncio” (com João Luengo), Ateliê OÇO, 2010; “Oniforma” (Coletiva), Centro Cultural São Paulo, 2007; “Coletiva” com Marco Willians, Associação dos Amigos do MAM (AAMAM), 2005 ; “Prólogo, Projeto Laboratório” (Coletiva), Espaço Annablume, 2004; “Travelogue” (Coletiva Variáveis) - Museu do Imaginário do Povo Brasileiro (Pinacoteca Estação), 2003; “Diversidades” (Coletiva), SESI Catumbi, 2000; “Expositivo Negativo” (Coletiva), Escola de Comunicação e Artes da USP, 1999; “Antigas e Novas Visões”, Farmácia Bio-Essencia, 1999; “Revi Europa” (Fotografia), Livraria FormaInforma, 1999; “Espaço?” (Coletiva), Escola de Comunicação e Artes da USP, 1998; “Faces da Loucura” (Coletiva), Instituto de Psicologia da USP, 1998.

A exposição “PINTURAS RECENTES” estará aberta ao público de 18 de outubro a 1º de novembro de 2014.