domingo, 24 de maio de 2015

Sevilla, la vieja

O trem de Madrid até aqui durou um pouco menos de três horas, com umas três paradas no meio do caminho, em pequenas cidades. Muitos turistas indo na mesma direção que eu, principalmente do norte europeu, o que imagino, por causa das línguas estranhas com muita entonação forte nos "r", lembrando a língua russa. Mas tinham falantes de alemão e inglês também. Devem estar buscando, como eu, um pouco do calor da Andaluzia.

Estou hospedada bem no centro viejo, perto do Alcazar e da Catedral e sua Giralda. São construções absolutamente impressionantes! Giralda é o nome da torre da catedral, que inicialmente era de uma antiga mesquita da cidade, do final do século XII. Tem 104 metros de altura e foi durante séculos a torre mais alta da Espanha e das maiores da Europa. Esta construção espetacular inspirou a arquitetura de muitas outras pelo mundo afora. E deve ter trazido momentos de inspiração para os pintores daqui, como Murillo, Ribera, Zurbarán, Velazquez.

Andei muito pelas ruelas do centro, labirínticas, estreitas, algumas se alcança os dois lados com os braços estendidos na lateral. Passei na porta da casa onde viveu Murillo. Fui até o Hospital de los Venerables, que não é um hospital, mas um centro de exposições num prédio muito antigo daqui. Tem três quadros quase desconhecidos de Velázquez lá, mas infelizmente foram emprestados para uma exposição em Paris e eu fico sem a oportunidade de vê-los. Mas hoje, domingo, vou ao Museu de Belas Artes de Sevilla ver o que tem por lá.

No fim da tarde (o dia aqui já está terminando por volta das 21:30), fui ver o rio Guadalquivir, que corre desde o meio da Espanha e passa por Córdoba e Sevilha e deságua no estreito de Gibraltar. Aqui estou bem perto da África, mais do que de Madrid. Este rio, bonito e caudaloso, tem trazido muita vida para esta região e inspirado poetas ao longo dos séculos, desde os primeiros árabes, que povoaram esta região. Mas de Luís de Góngora, poeta contemporâneo de Velazquez, que lhe fez um retrato, li este verso:

Gran rio, gran rey de Andalucía
De arenas nobres, ya que no doradas...

Caminhei um bom tempo pelas margens do rio Guadalquivir, admirando suas águas, seus barcos, suas pontes. Estas águas já eram apreciadas pelos antigos gregos, que lhe deram outro nome. Pelas margens deste grande rio passaram as águas do meu rio Ipojuca de Caruaru e minha vida inteira, como num filme.

E agora é de manhã cedo e várias igrejinhas ao redor tocam seus sinos, como galos cantando na madrugada. Como é bom estar aqui!

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O sol

Fui novamente ao Museu Sorolla. Tinha ido umas três vezes em 2013, mas tanta coisa aconteceu nestes dois anos que achei melhor voltar lá. Joaquín Sorolla faz parte do meu interesse de pesquisa nesta fase atual. Por causa da sua luz. Os quadros dele brilham! Dá até para pensar que eles têm luz autônoma, de tão iluminados que são. Claro, pois ele pintou esta luz espanhola, que é muito luminosa também nesta época do ano, na primavera em que estamos aqui. E ainda mais no verão!

De tão brilhante, esta luz nos "encandeia", pra usar um termo lá do meu nordeste. Ele foi muitas vezes à praia, com sua mulher Clotilde e seus filhos. Tanto em Valência, sua cidade, quanto em outros lugares. E fez inúmeros estudos dessa luz à beira-mar, tanto do efeito dela nas velas dos barcos dos pescadores, quanto na pele e na roupa das pessoas, nos corpos das crianças nuas que se banhavam no mar, nos guarda-sóis, e até no pelo de bois e cavalos que participavam da rotina dos pescadores.

No jardim da casa onde ele morou, e onde está o museu, passei um tempo bom desenhando, tentando alcançar os valores nas folhagens do jardim. Depois entrei e vi de novo aqueles quadros incríveis, assim como seu ateliê, seus pincéis, godês e cavaletes. A casa está quase intacta, no sentido de que até a decoração é a mesma de quando ele morava aqui. Dá até pra sentir como seria o movimento da casa, onde ele estava sempre presente, pois trabalhava no ateliê que foi feito dentro dê casa.foi um bom pai, viu seus filhos crescerem, ensinou-os a pintar, e os dois mais velhos seguiram a carreira do pai. Só a filha menor resolveu ser escultora. Desde a década de 1950, a casa e o museu estão sob a responsabilidade do governo espanhol, mais precisamente do Ministério da Cultura e Educação.

No meu país também tem muita luz! A pele do meu povo é de todas as cores, e mais morena em geral. Penso nisso sempre. Penso que vivo num país iluminado, não nesses países onde a luz do sol é quase um milagre e as pessoas vivem na penumbra, em ambientes fechados, aquecidos artificialmente, iluminados artificialmente. As vidas dessas pessoas é mais interiorizada, claro, pois falta sol em suas vidas. Mas no meu país, não, no meu país tem luz o ano todo, as pessoas gostam de se encontrar, de fazer festa, de dar risada e falar com todo mundo. Mesmo que estejamos passando momentos difíceis atualmente, tudo acontece debaixo do sol. Para o bem e para o mal, o sol brilha do mesmo jeito. Penso nisso.

Bom...

Parágrafo.

Para não dizerem que sou sectária, que venho a Madrid e não vou ao Museu Reina Sofia, fui ao Museu Reina Sofia! Consegui ficar uma hora inteira lá dentro! E vi quatro andares de exposição! Eu já fui umas quatro vezes ao Museu do Prado, já devo ter acumulado muitas horas lá dentro e ainda não consegui ver tudo o que tem pra ser visto lá...

Mas no Reina Sofia eu percorri tudo em uma hora! E olha que eu fiquei uns 15 minutos olhando para a Guernica, de Picasso. Já tinha visto boa parte daquilo em 2001, mas é claro que agora com outra experiência. Lógico que Miró, Dali, Picasso e todos os vanguardeiros do começo do século XX tinham uma mensagem a passar. Mas eu não sou obrigada a gostar de uma tela grande manchada de azul feita por Yves Klein só porque foi feita por Yves Klein! Nem nada me obriga a perder meu tempo diante de telas pintadas inteiramente de uma cor só. Nem mesmo diante dos quadradinhos coloridos do Mondrian! Me desculpe quem achar que neste momento estou cometendo uma heresia e que eu deveria ser castigada! Diante de tantos deuses! Nada me faz trocar Andy Wahrol por Velázquez! Ah.... Mas os tempos eram outros! Claro! Assim como hoje já não é mais o tempo de Andy Wahrol, nem de Dali, nem de Mark Rothko, nem de Duchamp.... Ahhhh..... Mas tem tanta gente ainda que quer esticar o tempo do penico conceitual! Concordo, isso tem mesmo! Em todos os lugares do mundo.

A desconstrução toda que foi feita a partir do início do século, descontruiu a pintura, as velhas formas de criar, desmontou as figuras, inventou imagens novas, rabiscou e coloriu o que se quis ao bel prazer de quem assim quis. Fez sentido. O mundo estava se acabando nas guerras, nos assassinatos de milhões de pessoas, na fome, no medo. Era natural que a arte refletisse esse caos. Se você olha para uma pintura de Fernando Léger, que tem no Reina Sofia e que é um dos que eu gosto, ele expressa essa contradição imensa entre vida e morte, entre o homem e suas máquinas de explorar e de guerrear...

Mas hoje?

O que faz sentido hoje?

Continuar repetindo o conceito artístico de quem achava que a arte precisava se estagnar?

Ou de quem queria ver uma grande revolução mudando o mundo e começou com sua própria técnica de pintura?

Quem são os "revolucionários" de hoje nas artes?

Quem?

Repito a pergunta: quem?

Vou procurando saber e por isso vou a Sevilla amanhã logo cedo, numa viagem de três horas de trem, para a terra de Diego Velázquez. Vou em busca desse sol que iluminou a ele e a Sorolla. E que me aqueça, porque esta Madrid ainda está muito fria e seca e venta muito e minha gripe não passa...

Notícias darei de lá.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Entre os mestres e suas pinturas

É claro que quando temos a oportunidade de ver tanta pintura de alta qualidade, tantos bons mestres juntos, de Rembrandt a Rubens e de Velázquez a Ribera, nascem dentro da gente muitos sentimentos, e um deles é de esperança: se nossa história humana foi permeada de eventos de grandeza em todos os sentidos, é porque trazemos latente em nossas almas essa capacidade imensa de expressão, que permanece viva porque faz parte de nós. E não, o mundo não está perdido!

Hoje no Museu do Prado, enquanto caminhava entre as centenas de pessoas que também foram para lá, de origens diversas (japoneses, franceses, chineses, alemães, brasileiros, espanhois), fiquei pensando: como é impressionante o poder da arte, que faz com que pessoas as mais diversas, de formações culturais tão diferentes, se unam em frente a um mesmo quadro abismados, curiosos, calados, contemplativos. "As Meninas" de Velázquez atrai multidões todos os dias. De crianças a adolescentes, de jovens a adultos e idosos, esta tela imensa (no tamanho e na grandeza) parece recolher dentro de si todos esses personagens. O quadro parece tomar 3 dimensões, e de repente somos parte daquela cena em torno da Infanta Margarida. O olhar do artista parece convidar a todos nós: entrem e se tornem parte da minha pintura junto com as donzelas, uma delas feia, do anão, do cachorro, de outros serviçais da corte de Felipe IV.

Em volta deste quadro, muitos outros. Nas salas diversas do museu, muitos quadros de Ticiano, Rubens, José Ribera, El Greco, Goya. Ahhhh Goya! Suas pinturas negras atingem o fundo da minha alma! O que são aquelas figuras escuras, feias, monstruosas algumas, inquietantes todas, que nos observam em cenas tão chocantes? O assassinato do 3 de maio, outro quadro grande de Goya, atrai nosso olhar para o rosto assustado, quase em pânico, do rapaz que vai ser fuzilado. De repente projetei neste rosto o rosto do meu sobrinho Rondineli que foi assassinado, não no dia 3 de maio, mas no dia 4 de maio deste ano! Ouvi seu grito quando o ladrão de celular atirou! E depois o silêncio... Da morte. Isto é Goya.

E El Greco de novo estava ali, muitos quadros dele. Havia um rapaz fazendo uma cópia em óleo da tela "O cavalheiro com a mão no peito". Estava lá com seu cavalete e sua palheta, que fiquei observando: branco de Titanio, amarelos de cádmio, vermelhos, terras, azuis e preto. Já tinha trabalhado bastante, se aproximava do final. Boa cópia. Atrás dele, estava me olhando um dos quadros de El Greco que eu acho de uma ternura incrível, o "Cavalheiro idoso". Que nos olha com olhar complacente, como se aguardasse que a gente falasse alguma coisa. Mas eu não queria falar nada. Hoje tive dificuldades para me manter andando nestes salões imensos, porque a gripe voltou com força. Se falasse ia tossir, incomodar o artista copista que tava tão concentrado na pintura.

Sempre acontece que quando passo muito tempo olhando para estas preciosidades pictóricas, de repente um troço qualquer vai crescendo dentro de mim, e parece que eu cresço junto e nem vou cabendo mais de tanta vontade de correr e pintar! Hoje observei muito os negros de Velázquez e de Goya e de Greco. Mas também observei o trabalho com as carnações feitas por pintores como Rubens, por exemplo. Por outros também. Assim como os drapeados das roupas que se fazem apenas mudando o valor das cores. Vi um autorretrato de Anton Raphael Mengs, pintor alemão, que me impressionou muito o seu trabalho com contrastes quase extremos de temperatura. Numa camada anterior, um avermelhado que foi sobreposto com camadas frias de cinzas e verdes criando um efeito maravilhoso. Parecia vivo! Fiquei com vontade de experimentar isso.

Depois do almoço e de uma pequena siesta à moda espanhola, por causa da gripe, sai pra ir ver uma lojinha que tem numa rua transversal à que estou. Chama-se Calle de Peres Galdos e uma placa já tinha me chamado a atenção antes: Belas Artes. Um senhor me recebeu muito simpático e já foi me dizendo que aquelas marcas de tinta que eu estava olhando eram artesanais, feitas por sua família. Tudo tinha começado com seu pai, e a loja já tem uns 70 anos. Muitos artistas passaram por aqui, ele me disse. Até Antonio López. Dois pigmentos me chamaram a atenção: Tierra de Sevilla e Tierra de Cassel, que nunca vi para vender no Brasil mas sei que muitos pintores usaram. Mira este tierra, me disse o senhor. E pegou com o dedo um pouco do Tierra de Sevilla e completou: o vermelho inglês passa muito longe da beleza disso aqui! É muito bom para pintar a cor da pele, junto com verde terra. E com o Azul Cerúleo nosso dá uns tons belíssimos. Pronto, me convenci. Comprei. Nem eram caros, um tubo de 90 ml saiu por 9 euros, os de 60 ml por 6 euros. Comprei o Tierra de Sevilla e mais outros quatro. Ele me deu de presente um "rojo inglês". Agradeci. "Vale!" como dizem por aqui todo o tempo.

Para casa experimentar um pouco de tudo isso aí.