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terça-feira, 13 de junho de 2017

Do pensamento simbolista, surge o ‘Mundo da Arte’


"Membros do movimento Mundo da Arte", pintura de Boris Kustodiev, 1916-1920
O grupo de artistas e intelectuais que se uniu no que ficou conhecido como “Mundo da Arte” (Mir Iskusstva, em russo), foi contemporâneo e bastante semelhante aos pintores simbolistas franceses, conhecido como “Les Nabis”. É o que aponta a pesquisadora Camilla Gray em seu livro “O grande experimento. Arte russa.”, que também narra:

“Emergiu de uma sociedade de colegiais, o ‘Pickwickianos do Neva’, que se tinha transformado numa ‘sociedade para a auto-educação’ sob a liderança de Alexander Benois em fins de 1880. A escola que todos frequentavam, o Colégio May, era uma instituição privada de classe média alta para os filhos da intelligentsia abastada de São Petersburgo, muitos dos quais de ascendência estrangeira”.

Era este o perfil dos membros do grupo que surgiu como um movimento no começo dos anos 1890, também paralelo ao movimento “Art-Nouveau” europeu. Eles desejavam representar “a vanguarda artística na Rússia” no final do século XIX e começo do XX. Era uma sociedade, que organizava exposições e depois editou uma revista.

Os artistas deste grupo - desenhistas, escritores, poetas e pintores - queriam influenciar a sociedade “e inspirar nela uma atitude desejável para com a arte - arte entendida em seu sentido mais amplo, o que vale dizer: incluindo literatura e música”.

"Alexander Benois", por Leon Bakst, 1898
Um de seus principais líderes foi Alexander Benois (1870-1960), desenhista teatral, produtor, crítico e historiador de arte. Nasceu em São Petersburgo, de família com ascendência alemã, francesa e italiana, e que pertencia a uma colônia estrangeira em São Petersburgo, criada na época em que o czar Pedro, o Grande, tinha trazido artistas do Ocidente para a Rússia, com o fim de ocidentalizar a cultura local, no século XVII.

A família Benois teve uma sucessão de artistas talentosos (incluindo arquitetos) que haviam dado uma grande contribuição à ocidentalização da Rússia. Os Benois não simpatizavam com as ideias de valorizar a cultura russa original, que consideravam bárbara e provinciana “e ao contrário de seus contemporâneos, seus membros não se desligaram do Ocidente”. Pelo contrário, por suas origens europeias, acompanhavam as ideias contemporâneas francesas e alemãs, assim como as italianas. Benois frequentou por apenas um ano as aulas de desenho - seu único aprendizado em arte - na Academia de Belas-Artes de São Petersburgo. 

Esta faceta internacional era a característica básica de o Mundo da Arte. Traziam a ideia da “arte como salvação da humanidade, o artista como sacerdote dedicado, e sua arte o caminho da verdade e beleza eternos.” O Mundo da Arte queria restaurar na Rússia a cultura que havia se perdido durante o período em que o movimento “Os Errantes”  (leia mais aqui) influenciou artistas e intelectuais russos. 

“Seu alvo era criar na Rússia um centro essencialmente internacional que contribuiria, pela primeira vez, com a corrente principal da cultura Ocidental.”

Retomaram o estudo das ideias alemãs, francesas e inglesas e fizeram uma reaproximação com o legado das reformas feitas por Pedro o Grande e por Catarina, que tinha sido totalmente desprezado pelos “Os Errantes”. 

Entre os “Pickwicknianos do Neva” (os fundadores do Mundo da Arte), estavam Dmitri Filosofov, Konstantin Somov e Walter Nuvel. Dmitri “Filosofov era um rapaz bonito e elegante”, filho de um importante membro do governo, um aristocrata - “era escritor, mas não muito criativo” - apresentou ao grupo o escritor Dimitri Merezhkovsky, “pensador religioso simbolista que contribuiu com a veia mística para as discussões do grupo.” Os membros do grupo se reuniam quase todos os dias, após as aulas, na casa de Benois. 

Revezavam-se em palestras, interrompidas por constantes risadas e gracejos, que as frequentes chamadas à ordem de Benois, sacudindo o sino de bronze da mãe, não conseguiam dominar totalmente”. Falava-se especialmente sobre artistas alemães, de Dürer a Liebermann e Corinth. Benois escreveu mais tarde que, nessa época, os impressionistas franceses não eram conhecidos na Rússia, sendo introduzidos somente após as exposições do Mundo da Arte no começo do século XX. Ele dizia que o livro de Émile Zola “A obra”, publicado em 1918, foi a primeira fonte de ideias impressionistas na Rússia.

Benois conheceu na Academia o estudante de arte Lev Rosenberg, que era pintor e desenhista teatral, mas cujo nome artístico ficou Leon Bakst, em homenagem ao avô. Apesar de ser o único que tinha origem mais pobre, Bakst se tornou líder do grupo e seu primeiro artista profissional - era dos “mais ferrenhos propagandistas do anti-academicismo, pois havia experimentado em primeira mão o frequente preconceito acadêmico contra qualquer coisa que ultrapassasse a fórmula tradicional”. 

Antes, ele também tinha sido aluno de Pavel Chistyakov e estava plenamente convencido do valor do realismo na pintura. Havia feito uma madona como uma velha de olhos vermelhos, vertendo lágrimas sobre o filho morto. Esta tela estava participando de um concurso com o tema “Pietá”. Quando Bakst foi chamado pelo júri, viu sua tela riscada com duas linhas de giz. Ficou furioso! Resolveu, depois disso, se juntar ao grupo Mundo da Arte por sua posição radical contra a Academia (mas que também era contra “Os Errantes”).

No final dos anos 1890, chegou a São Petersburgo um primo de Filosofov, Sergei Diaghilev, que logo foi apresentado ao grupo, com o qual não se identificou de imediato, comparecendo às reuniões com pouca frequência.

Após a formação escolar no Colégio May, a maioria dos alunos, como era de costume, foi para a Europa passar um ano, antes de entrar na Universidade de São Petersburgo: Benois tinha ido para a Alemanha, para se familiarizar com a arte contemporânea de Munique; Filosofov e Diaghilev tinham ido para Paris e voltaram bastante impressionados com as obras de Zuloaga, Puvis de Chavannes e do pintor escandinavo Anders Zorn.

Em 1893, um diplomata francês, Charles Birlé, que estava a serviço do consulado francês em São Petersburgo, foi apresentado aos “Pickwicknianos do Neva”, com quem ficou durante um ano e apresentou a eles os impressionistas franceses, em especial Gauguin, Seurat e Van Gogh.

Sergei Diaghilev era o menos criativo de todos do grupo, mas o mais prático. Por isso, logo que surgiu a ideia de publicar uma revista, como nenhum dos outros tinha aptidão prática para coordenar uma empresa como esta, o escolhido foi Diaghilev, que também era o responsável pela organização das exposições de arte. Em 1895 ele havia ido ao exterior e adquirido muitas pinturas para sua coleção.

O ano de 1896 foi um ano de dispersão do grupo. Benois, formado na universidade e casado, mudou-se para Paris, assim como outros que também foram para o estrangeiro.

Mas em 1897, Diaghilev retomou o grupo e organizou duas exposições: “Aquarelas inglesas e alemãs” e “Pintores escandinavos”. Em 1898 organizou a “Mostra de pintores russos e finlandeses”. Estas exposições foram grandes eventos artísticos e marcaram o Mundo da Arte como uma “sociedade de exposições”. 

Resolveram que era chegada a hora de ter uma revista, também intitulada Mundo da Arte. Mais uma vez o papel de organizador principal coube a Sergei Diaghilev, que, aliás, não era artista. Mas como o custo de produção era muito alto, procuraram o apoio da princesa Tenisheva, que tinha um centro de artes instalado em sua propriedade e era muito amiga de Benois; assim como o de Sava Mamontov, que havia se recuperado da falência e dirigia uma indústria cerâmica. O primeiro número de Mundo da Arte saiu em 1898, uma edição caprichada, que levou um ano para ser produzida, com clichés feitos na Alemanha.

Benois havia voltado de Paris e escreveu dois artigos iniciais: sobre os impressionistas franceses e sobre o pintor alemão medieval Pieter Brueghel. Este último artigo foi recusado, por não ser “suficientemente moderno”.

O grupo já havia se dividido em duas visões distintas: uma de esquerda, que “eram pelo ‘novo’ acima de tudo, e que, por princípio, atacavam tudo o que consideravam limitado, provinciano ou antiquado”; outros membros se posicionavam mais à direita, eram conservadores.

Na revista, Filosofov também publicou textos de representantes da primeira geração de simbolistas da literatura russa. 

Capa da revista Mundo da Arte, 1899,
por Jelena Dmitrijewna Polenowa
O Mundo da Arte, observa Gray, “inspirava-se na ideia de uma arte que existisse autonomamente, não subserviente a um tema de propaganda religioso, político ou social. (...) A Arte era vista como uma forma de experiência mística, um meio através do qual a beleza eterna poderia ser expressa e comunicada - quase um tipo novo de religião.”

O Simbolismo estava em alta em vários países da Europa Ocidental, como a França, e também tinha alcançado a Rússia. Na literatura, os escritores religiosos Merezhkovsky e Rosanov eram comparados aos franceses Baudelaire, Verlaine e Mallarmé.

No primeiro número da revista, incluiu-se ilustrações dos artistas do “Art-Nouveau” de vários países. Entre eles, os franceses Puvis de Chavannes (que teve muitos seguidores na Rússia), Monet e Degas. 

No último ano de publicação da revista, em 1904, ela se voltou mais para os artistas franceses, publicando-se nela imagens de obras pós-impressionistas. Mas os membros do grupo também nutriam ainda mais simpatia para com os artistas secessionistas de Viena, Böcklin e da Escola de Munique. O grupo publicou o último número da revista Mundo da Arte com a certeza de que havia cumprido o papel de restabelecer contato com a vanguarda artística europeia ocidental, preparando o terreno para uma “cultura internacional” na Rússia. 

Eles também haviam se voltado para a moda francesa recente de admirar a arte folclórica e primitiva, coisa que já havia atraído o interesse dos artistas do Círculo de Mamontov

“Contatos entre o movimento nativo de Moscou e o trabalho de Gauguin, Cézanne, Picasso e Matisse começaram em 1904 e continuando até 1914. Seu trabalho foi marcado por uma sucessão de exposições históricas, continuação lógica do movimento Mundo da Arte”.

Desde a exposição de 1900, as mostras de arte do grupo se voltaram mais para os artistas russos. Mas “havia duas tendências nesse estilo novo que poderiam ser, grosso modo, definidas como as escolas de S. Petersburgo e a de Moscou: a escola da linha e a escola da cor.” Falaremos delas mais abaixo.

Da escola de São Petersburgo, com artistas mais jovens, estavam: Benois, Somov, Lanseray, Dobuzhinsky e Bakst. Da escola de Moscou: Igor Grabar, Pavel Kusnetsov, Utkin, os irmãos Miliuti Sapunov e os líderes da futura vanguarda da década seguinte Larionov e Goncharova, que participaram pela primeira vez de uma exposição do Mundo da Arte em 1906. 

Tendo saído do movimento, Sergei Diaghilev a partir de 1905 passou a organizar por conta própria eventos que elevassem a arte e a cultura russa ao status merecido, dentro e fora da Rússia. Realizou em primeiro lugar uma exposição de pinturas de retratos do século XVIII, “o que significava recolher e juntar obras de arte completamente esquecidas e desprezadas, de remotas casas de campo do país inteiro.” Foi o que ele fez. O resultado foi brilhante. A exposição aconteceu no Palácio Taurida em São Petersburgo, e na inauguração estava o czar Nicolau II (lembremos que este foi o ano da primeira grande revolução que abalou o Império russo, e terminou com o assassinato em massa de uma manifestação de trabalhadores, executado pelas forças czaristas. O episódio ficou conhecido como “domingo sangrento”. Camilla Gray se cala sobre isso...)

Em 1906, Diaghilev organizou a seção de arte russa no Salon d’Automne em Paris, no Grand Palais. Eram 12 salas dedicadas à arte e cultura russas e a montagem foi organizada por Bakst. Foi uma mostra bastante ampla, apresentando desde a pintura de ícones a exemplos de todos os períodos da arte russa - com exceção das obras dos artistas do grupo “Os Errantes”. Foi desta exposição que participaram Mikhail Larionov e Natalia Goncharova.

Diaghilev também levou para Paris uma apresentação do “Balé russo” em 1909, que se apresentou no Teatro Châtelet e teve grande sucesso. Até 1914, Diaghilev levou anualmente a Paris alguma mostra ou apresentação musical:

“em que se pode localizar os vários temperamentos e linguagens que iriam compor o ‘Mundo da Arte’: o ressurgimento clássico favorecido por Benois; Roerich e a evocação de remotas culturas pagãs por Igor Stravinsky; o ressurgimento helenístico, refletido nos desenhos de Bakst (...); o impressionismo ornamental-decorativo de Golovin na tradição de Vrubel; os desenhos impressionistas de Korovin; e nos últimos desenhos de Larionov e Goncharova que, não só recuperam, em seus coloridos brilhantes e motivos formais, o retorno à arte folclórica dos artistas de Abramtsevo, mas antecipam o movimento futurista na pintura do qual eles foram os pioneiros na Rússia”
"O fantasma", Victor Borissov-Mussatov, 1903
O pintor mais importante desse período inicial da arte moderna russa, depois de Vrubel, foi Victor Borissov-Mussatov (1870-1905). Natural de Saratov, no Volga oriental, que era o principal centro de arte de província desta época até 1920. O Museu de Saratov ostentava uma coleção bastante erudita para a época e Mussatov , ainda criança, passou a frequentar as aulas de desenho no Museu. Foi depois para a Faculdade de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou. Em 1891 transferiu-se para a Academia de Belas Artes de São Petersburgo, sendo um dos últimos alunos a estudar com Pavel Chistyakov.

Em 1895 foi para Paris, trabalhando durante 4 anos no estúdio de Gustave Moreau “famoso por sua breve acolhida aos futuros pintores ‘fauves’”. Mas seu interesse principal foi pela obra de Puvis de Chavannes e por causa dele,Mussatov passou a trabalhar num estilo “historicista”: seu fascínio pelo passado foi uma constante em seu trabalho, “o momento irrecuperavelmente perdido do qual ele parece lamentar-se para sempre”. Ele tornou a figura humana mais distante e misteriosa “uma visão secreta e ensimesmada da existência.”

Em 1895, morre Gustave Moreau e Mussatov volta à Rússia, indo para sua terra natal, Saratov. Um proprietário de terras cedeu a ele um parque abandonado com uma casa velha de estilo clássico, com colunas brancas e cúpulas arrendondadas, que aparecem várias vezes em seu trabalho. “Os azuis suaves e os verdes acinzentados, que Mussatov sempre usou, são as cores dos simbolistas por excelência”, observa Camilla Gray.

Os estilos pictóricos de São Petersburgo e Moscou

SÃO PETERSBURGO
MOSCOU
Ênfase na linha
Ênfase na cor
Influência dos cenários do teatro sobre a pintura de cavalete
Novas maneiras de criar o espaço, sem se ligar na perspectiva
Passaram das formas fechadas a formas abertas, rejeitando a modelagem tradicional
Sentimento simbolista
O sentido da distância se sobrepunha ao explícito senso de distância entre o espectador e o mundo
“o intangível, o misterioso, e não o defnido e compreendido, representam a realidade mais profunda”

O uso de silhuetas mais exageradas, que se pareciam mais a caricaturas do que figuras humanas, exibidas de perfil ou de costas para o espectador
Influência dos impressionistas franceses
Redução da figura humana a uma forma apenas ornamental-decorativa
Uso de cores lisas em tudo, como na pintura de ícones
Eloquência da linha divorciada da cor e da forma
distanciamento do realismo na cor e na forma
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Referência bibliográfica:
Gray, Camilla. O grande experimento. Arte russa. 1863-1922. São Paulo: Worldwhitewall Editora Ltda, 2004

"A senhora na cadeira de balanço" (esboço para um filme não realizado),
Mussatov, 1897
"A carta de amor", Konstantin Somov, 1911
"Tipos da cidade", Mstislav Dobuzhinsky, 1915 
"Nemetskaya", Alexander Benois, 1911
"Elizabeth Petrovna", Eugene Lanceray, 1905

segunda-feira, 26 de maio de 2014

O ofício da Arte II

O violino de Ingres, autor desconhecido, século XIX

Em maio de 1989 a editora Parsifal Ediciones, da Espanha, publicou pela primeira vez em língua espanhola o livro “El mensaje de Igor Strawinsky”, escrito por Théodore Stravinsky, filho do compositor russo.

Este livro me veio às mãos num momento em que o tema do ofício diário do artista tem surgido em conversas com o pintor Maurício Takiguthi, um dos maiores defensores do exercício diário do trabalho do pintor, do desenhista. Concordo completamente com ele: muitos mestres, de todas as áreas das artes, já apontaram que o resultado de seu trabalho - sua obra de arte - deve-se a infindáveis estudos, dias e anos a fio. Uma obra de arte não surge do dia para a noite.

Assim também encontrei neste livro do pintor Thédore Stravinsky - que fala sobre seu pai, o músico - um exemplo do artista dedicado a seu trabalho.

“A arte postula a comunhão, e compartilhar com os outros
o gozo que o artista mesmo experimenta
é para ele uma necessidade imperiosa.” 
(Igor Stravinsky)

Retrato de Igor Stravinsky, 1958
Litografia feita por Theodore Stravinsky
“A música parece a Stravinsky antes de tudo como ‘um elemento de comunhão com o próximo e com o Ser’". Assim começa o texto de Théodore, que discorre um pouco mais sobre a necessária comunicação entre o artista e o seu público. Um compositor, diz ele, tem suas aspirações próprias, suas alegrias, seus sofrimentos, suas feridas. Um artista de verdade sente necessidade natural da prática do seu ofício. Como exemplo, uma frase do próprio Stravinsky:

Para mim, a composição é uma função diária à qual me sinto chamado a cumprir. Componho porque para isso sou feito e não poderia jamais me dispensar de fazê-lo.”

Igor refletia muito sobre a questão do “tempo”. Para ele a música “é o único campo em que o homem realiza o presente…” A música, diz ele, estabelece ordem nas coisas, “uma ordem entre o homem e o tempo”. E por isso, para ele o ato de compor era sinônimo de realizar essa ordem. Mas de um tipo de ordem que nada tem em comum com “nossas sensações correntes”, pois se trata de ir a fundo na essência das coisas para arrancar dela um contraponto que possa interromper a sequência das “coisas correntes” e nos levar a um estado de espírito onde o tempo é outro, de outra natureza.

Para mim, hoje esta questão do tempo é dos temas que mais têm me tocado e que está indissoluvelmente ligado ao tema do ofício. Vivemos alucinados, na correria do cotidiano, das mil coisas a fazer. Vivemos num tempo em que o passado não conta e o futuro não existe. Já vivemos - até bem pouco tempo atrás, uns 20 anos - pensando que o futuro ia ser bom, pois nossa tradição era fértil. Os movimentos pós-modernos neoliberais nos trouxeram a este estado em que parecemos viver sempre no presente, agarrados a ele como bote salva-vidas. Mas não nos trouxe a um mergulho no “eterno presente”, no sentido não-linear da nossa noção de evolução da história, mas ao pragmatismo esquizofrênico do “fazer” coisas o tempo inteiro.

Como a arte pode trazer de volta essa “ordem entre o homem e as coisas”, de que fala Stravinsky? 

O artista precisa necessariamente - diz Théodore - experimentar ele mesmo esse contato com a essência do mundo, e do tempo. E mostrar que o que é acessório é completamente descartável quando se tem o essencial. Mas observa que esta tomada de consciência foi se elaborando em Stravinsky de forma progressiva, “como o germe de uma semente”. Para chegar a um tal estado, “Stravinsky necessitou de toda uma vida de trabalho, de experiências, de reflexões.” Numa atitude fundamental “constante”, atesta o filho do compositor russo.

Neste ponto ele propõe uma reflexão sobre forma e conteúdo:

Partitura da composição
"Pássaro de Fogo" de Stravinsky
No campo da arte “que me importam as coisas belas que quereis dizer-me (e que são espírito) se tu não encontrastes a forma adequada que possam ser assimiladas (forma que é matéria)? A imagem do homem, seu autor, toda obra de arte é ao mesmo tempo espírito e matéria, indissoluvelmente unidos em uma única entidade. Tropeçamos aqui com a eterna questão: a forma e o conteúdo. Não há forma viva sem conteúdo autêntico, e tampouco há conteúdo autêntico sem forma adequada. É uma exigência simples da nossa natureza.”

Mais à frente Theodore Stravinsky discorre sobre a atividade criado, dizendo que ela é feita sob dois signos distintos, que ele chama de “ontológicos” e “éticos”.

Nos artistas que baseiam sua atividade criadora dentro do signo da ontologia (parte da filosofia que estuda a natureza do ser, a existência, a realidade), estes concentram seus esforços na “obra a realizar”. É essa obra que vai ditar suas exigências e todos os passos que seu autor precisa dar para poder alcançá-la. E pergunta: como conceber uma obra a realizar se não for sob determinada forma? Por isso, buscar a perfeição da forma é a preocupação principal e constante dessa “família” de artistas. E completa que esses artistas fazem isso porque

“sabem muito bem que somente sob esta condição é que sua obra terá aquela completa autonomia que querem conferir-lhe.”

Quanto aos que seguem o signo da “ética” (no sentido dos valores morais, de caráter pessoal) começam seu trabalho interrogando ao seu eu, a “cujas exigências tratarão de conformar a obra a realizar.” Esse “eu” é o que rege tudo e a ele tudo deve obedecer. O critério de “sinceridade” passa a ser dominante. A obra de arte gerada aí não tem autonomia, porque se encontra marcada “com o selo do seu autor” ou como “expressão daquilo que ocorre em seu foro interno e desejada como tal pelo artista”. Os artistas desta categoria se incluem dentro daqueles que buscam o “conteúdo espiritual” de suas obras. Mas, continua Théodore, esse conteúdo “é algo muito mais profundo e somente a forma, quando alcançou sua perfeição, tem a virtude de nos fazê-la sensível; é somente ela a que, expressando-se substancialmente, nos revela ao mesmo tempo o eu profundo em que ambos - forma e conteúdo - encontraram seu nascimento simultaneamente. Quando conseguem realizar uma obra válida, uma obra-mestra têm que admitir que inconscientemente, e apesar deles mesmos, esses artistas trabalharam, na realidade, como os anteriores.”

E conclui dizendo: toda obra perfeita, seja qual seja sua etiqueta, pode ser considerada clássica. E que Stravinsky pertence, sem sombra de dúvidas à primeira categoria, pois “seu sentido ontológico da obra, seu gosto artesanal pelo ofício se desenvolvem e se comprovam nele com o passar dos anos, na medida em que vai tomando consciência de si mesmo, de sua vocação própria”.

Para Stravinsky, a inspiração se identifica com “aquela atração irresistível que experimenta pensando no objeto a realizar, no problema concreto que se propõe a resolver”.

Igor Stravinsky
Théodore exemplifica o gosto inato de seu pai pelo seu ofício e pela “obra bem feita”, mostrando um pouco como era sua sala de trabalho. “O aposento em que trabalha não tem nada a ver com o espaço de um intelectual, mas é uma verdadeira oficina; sua mesa, uma bancada. Tintas e lápis de diferentes cores aparecem junto a borrachas flexíveis ou duras, penas de todo tipo e calibre, raspadores grandes e pequenos, traçadores, réguas, papeis secantes e potes de cola”. E isso sempre chamou a atenção de todos os que se acercaram dele. O mesmo amor que ele tinha por seu ofício, diz Théodore, ele tinha pelas coisas.

Sempre se diz que uma obra de arte é reflexo em maior ou menor grau de seu autor. E isto também vale, na opinião de Théodore, para as outras artes: pintura, escultura, poesia. E opina, também como artista plástico que era: “sob pena de ir parar num esoterismo mais ou menos declarado, ou no puramente decorativo” a pintura e a escultura “deve salvaguardar (pelo menos em certa medida), seu caráter figurativo. Só ele permite realizar aquela ‘comunhão com o próximo’ que é - como vimos no caso de Stravinsky - o mais íntimo desejo de todo artista autêntico”.

O mesmo se passa com a poesia, diz ele. “É pelo sentido inteligível, racional das palavras e das frases que se estabelece a comunhão entre o poeta e o leitor; é por esse canal necessário, mas que não deixa de ser bastante diverso, que se transmite sua verdadeira mensagem poética.”

E continua: “A música, sendo como toda arte uma linguagem, expressa necessariamente algo; da mesma maneira que uma linguagem, uma arte inexpressiva é inconcebível”. Mas para que não se confundam os que contra-argumentam mostrando que o debate forma-conteúdo é morto, a obra de arte, seja ela música, poesia ou pintura expressa “algo essencialmente inefável”. Os longos textos que se escrevem para “explicar” determinadas obras jamais poderão suprir a falta de sentido e de qualidade estética, seja musical, poético, imagético. 

Concluindo esse primeiro capítulo do livro, entre os escolhidos para comentar aqui, transcrevo a frase de André Gide, que Theodore Stravinsky colocou como abertura do capítulo de que trata da evolução do músico:

Foi retendo e restaurando a tradição quando esta se estava extraviando, que Poussin pode parecer a Delacroix saudavelmente revolucionário”.

(Nicolas Poussin foi um pintor francês que morreu em Roma em 1665 e sempre foi um ferrenho defensor do classicismo na pintura. Do outro lado, Eugène Delacroix, outro pintor francês que viveu no século XIX, foi um dos maiores artistas do movimento romântico e realista.)

terça-feira, 13 de maio de 2014

O ofício da arte I

Igor Stravinsky, Mazé Leite
carvão sobre papel canson, 13 de maio de 2014
Igor Stravinsky cruzou meu caminho nestes últimos tempos.


Primeiro sketch
Primeiro, através de uma fotografia em preto e branco. Eu procurava referências para desenhar e entre diversas fotos estava um homem já idoso, de olhar triste e um tanto cansado. Fiz um primeiro desenho dele a lápis. Uns dias depois, a foto volta a aparecer de vez em quando em minhas mãos e me intrigar. Fui ouvir sua música, para entender aquele olhar.


Comecei com a "Sagração da Primavera", que ele fez em 1913 e que foi coreografado por um dos melhores bailarinos russos de todos os tempos: Vaslav Nijinski. Depois ouvi "Pássaro de Fogo", "Canção do Rouxinol"… E fui viajar para Montevideu.


No Teatro Solís, enquanto aguardava a hora para ouvir a palestra de John Maxwell Coetzee, fiquei um tempo na pequena livraria do teatro, fuçando os títulos. Cai nas minhas mãos o livro “El mensaje de Igor Strawinsky”, escrito por seu filho o pintor Théodore Stravinsky. Muita coincidência… Folheei o livro, comprei o livro e no dia seguinte comecei a lê-lo avidamente.


Ultimamente há um tema que vem me encucando e cruzando meus pensamentos: o tempo. Stravinsky apareceu nesse meio tempo… Vamos buscar os pontos de união.


O bailarino Nijinski no papel de
Petruska, balé de Stravinsky
Já encontrei logo de cara um frase sua que dizia que a música, para ele, estava “destinada a instituir uma ordem nas coisas, e essa ordem compreende sobretudo uma ordem entre o homem e o tempo”. Pois é…


Entre a música e a pintura há inúmeros pontos em comum, inclusive vários termos, como cromatismo, contraponto, ritmo. Claro que uma pintura é algo que se constrói com as mãos, pinceis e tintas e seu resultado final é feito para ver. A música se faz com as mãos, compondo ou tocando um instrumento, e é feita para ouvir. Alguns ousam buscar relações entre esses dois instrumentos humanos de percepção, podendo “ouvir” algo em uma pintura ou “ver” alguma imagem ao ouvir uma música. Mas não vamos entrar por aí, por enquanto.

O objetivo deste e do próximo post é falar do livro que comprei em Montevideu, o “El mensaje de Igor Strawinsky”.